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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Estou Cansado(a)

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo…
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
Álvaro de Campos

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O Teu Riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera , amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
Pablo Neruda

sábado, 1 de agosto de 2009

Nada aqui é certo

“O que é certo mesmo, é que temos que viver cada momento,
cada segundo, amando, sorrindo, chorando, emocionando,
pensando, agindo, querendo, conseguindo (…)
não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode,

que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você.
Gaste mais horas realizando que sonhando,
fazendo que planejando, vivendo que esperando,
porque embora quem quase morre esteja vivo,
quem quase vive já morreu.

Mas eu desconfio que a única pessoa livre,
realmente livre, é a que não tem medo do ridículo.”
Luís Fernando Verissímo

terça-feira, 28 de julho de 2009

Num Tempo Assim...

"Quando depositamos muita confiança ou expectativas numa pessoa, o risco
de se decepcionar é grande.
As pessoas não estão neste mundo para satisfazer as nossas expectativas,
assim como não estamos aqui, para satisfazer as delas.
Temos que nos bastar... nos bastar sempre,
e quando procuramos estar com alguém,
temos que nos conscientizar de que estamos juntos porque gostamos,
porque queremos e nos sentimos bem, nunca por precisar de alguém.
As pessoas não se precisam, elas se completam...
não por serem metades, mas por serem inteiras, dispostas
a dividir objectivos comuns, alegrias e vida.
Com o tempo, você vai percebendo que, para ser feliz com a outra pessoa,
você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela.
Percebe também que aquela pessoa que você ama (ou acha que ama)
e que não quer nada com você, definitivamente,
não é o homem ou mulher de sua vida.
Você aprende a gostar de você, a cuidar de você,
principalmente a gostar de quem gosta de você.
O segredo é não cuidar das borboletas e sim
cuidar do jardim para que elas venham até você.
No final das contas, você não vai achar quem você está procurando,
mas quemestava procurando por você"
Palavras deixadas pelo poeta Mário Quintana

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Compreensão

"Só me dirijo às pessoas capazes de me entender,
e essas poderão ler-me sem perigo."
Marquês de Sade

sábado, 13 de junho de 2009

Venenos de Deus, Remédios do Diabo

"Aos 10 anos todos nos dizem que somos espertos, mas que nos faltam ideias próprias.
Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com ideias.
Aos 30 anos pensamos que ninguém mais tem ideias.
Aos 40 achamos que as ideias dos outros são todas nossas.
Aos 50 pensamos com suficiente sabedoria para já não ter ideias.
Aos 60 ainda temos ideias mas esquecemos do que estávamos a pensar.
Aos 70 só pensar já nos faz dormir.
Aos 80 só pensamos quando dormimos."
"Fala de Bartolomeu Sozinho, personagem de Venenos de Deus, Remédios do Diabo de Mia Couto"

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Verdes são os campos

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.
Luís de Camões

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Saudade

Mesmo que nossos lábios não se cruzem novamente,
posso dizer em silêncio,
tudo aquilo que ficou escondido para sempre.
Haverá momentos em que nossos pensamentos
se encontrarão no espaço, e assim,
sentiremos falta de estarmos juntos novamente.
Janis Joplin

sexta-feira, 5 de junho de 2009

A melancolia aparece de surpresa e fica e fica...

«Os dias sem ti são todos iguais
são dias sem brilho são dias a mais».

terça-feira, 2 de junho de 2009

Eu escrevi um poema triste

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!
Mário Quintana

terça-feira, 26 de maio de 2009

Mar

Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Eras um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia...

Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto...

Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!

Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!

Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!
Miguel Torga

domingo, 24 de maio de 2009

Rosa

"Tu és como rosto das rosas:
diferente em cada pétala.

Onde estava o teu perfume?
Ninguém soube.

Teu lábio sorriu para todos os ventos
e o mundo inteiro ficou feliz.

Eu, só eu, encontrei a gota de orvalho
que te alimentava, como um
segredo que cai do sonho..."
Cecília Meireles

sexta-feira, 22 de maio de 2009

O silêncio é um mar sem ondas...

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
Miguel Torga

terça-feira, 19 de maio de 2009

Pelo sonho é que vamos...

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?
Partimos. Vamos. Somos.
Sebastião da Gama

Já bem dizia António Gedeão que "o Sonho comanda a Vida"...

E não é verdade?

domingo, 10 de maio de 2009

Talvez

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...
Pablo Neruda

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Quero Voar

(...)
" Só pode voar quem arriscar cair."
Mafalda Veiga


terça-feira, 5 de maio de 2009

Pus o meu sonho num navio...


Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
Cecília Meireles

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Dia de Chuva

"Chuva fria
Que cai sem culpa.
Minutos que passam
Sem deixar marcas.
Gotas que molham a terra;
Gotas que são a incerteza de um belo dia.
Cada gota dessa fria chuva
Poderia ser minutos ao teu lado...
Minutos abençoados pelo amor.
Essa chuva não tem culpa
Mas desfaz um sorriso
Por saber que quando a noite chegar
Não poderei ver as estrelas
E nem dormir com a janela aberta...
Pois gotas cairiam sobre a minha cama.
Os minutos voam
E só deixam uma gota de esperança
De que essa chuva vai passar...
Chuva que está presente desde o amanhecer
E só morrerá com o anoitecer.
Chuva que expulsa as estrelas do céu.
Chuva que nos faz adormecer
E a esquecer desse
Dia de Chuva."

domingo, 26 de abril de 2009

A essência do que sinto...

Por vezes, o que mais quero,
é que cada hora deslize delicadamente,
sem pressa.
E esta tarde poderia ser assim:
Significativa,
como a mão do pintor
que transforma as cores em arte.
E Para Sempre,
como é o tempo de cada árvore,
de cada rio, de cada encontro
.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas.
Essas e o que faz falta nelas eternamente;

Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço, Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais,
se puder ser,

Ou até se não puder ser... E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço...

Álvaro de Campos